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População se une contra o desmonte do hospital da USP

27/11/2017

Dona Maria José da Conceição Melo Silva, 50 anos, diarista, estava de folga hoje (24). Mas não tirou o dia para resolver questões pessoais, domésticas ou mesmo descansar. Moradora do Jardim Jaqueline, na altura do quilômetro 14 da Rodovia Raposo Tavares, ela pegou condução com dois netos, de 3 e 2 anos, e foi para o Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), no Butantã, zona oeste da capital paulista.

Diferentemente de levá-los para atendimento médico, como normalmente faz, dessa vez foi ao HU, como é carinhosamente chamado, para se juntar a outros usuários, moradores da região, estudantes de Medicina e Enfermagem da USP, em greve há mais de uma semana, além de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores, sindicalistas e parlamentares em um abraço simbólico ao serviço de saúde que caminha para o fechamento pela gestão do governo de Geraldo Alckmin.

"Tenho quatro netos, todos nascidos no HU. O mais novo, de 2 anos, tem um problema de saúde e é bem tratado aqui. Passa por diversos especialistas, todos eles excelentes médicos. Precisamos lutar pelo hospital", conta a diarista, que não esconde o orgulho de dizer que concluiu curso de auxiliar de enfermagem e que acredita na saúde pública.

Dona Maria José e sua família estão entre as mais de 450 mil pessoas, moradoras dos mais diversos bairros da capital e de pelo menos cinco municípios vizinhos que recorrem ao HU. Na última terça-feira (21), foi desativado o atendimento pediátrico. A única pediatra que havia não suportou a pressão e pediu demissão. No início de dezembro, deverá ser fechado o atendimento de clínica geral.

Se o hospital é praticamente a única alternativa para todas essas pessoas, é parte importante da formação dos estudantes de Medicina, curso dos mais concorridos da Universidade de São Paulo, maior e mais importante do país. No estado mais rico da federação, em que o governo abriu mão de pelo menos R$ 14,6 bilhões neste ano com desonerações e destinou apenas R$ 10,2 bilhões para serem rateados pelas três universidades estaduais – USP, Unicamp e Unesp –, os futuros médicos ainda não sabem onde vão cumprir a parte prática do curso.

Para os estudantes de Medicina em greve desde o último dia 6, o Hospital das Clínicas, também ligado à Faculdade de Medicina da USP, não supre a parte prática. Os casos atendidos ali, de alta complexidade, não proporcionam experiência no atendimento de problemas de saúde mais simples, como é no HU. "O reitor, Marco Antonio Zago, ainda não deu explicações sobre como vai ficar essa questão se ele fechar o hospital, como pretende."

Para aumentar a resistência, os alunos da Enfermagem entraram em greve no último dia 16. O movimento, considerado de vanguarda dentro da universidade que é também a mais conservadora, tem apoio de funcionários do hospital, de parlamentares e de toda a população.

O ato desta sexta-feira culminou com a entrega de uma carta à reitoria da USP. O Coletivo Butantã na Luta, que organizou o ato, soltou carta aberta à população, explicando a gravidade da situação e ressaltando a importância do HU. E pede ao reitor: "Assuma sua responsabilidade como médico e professor. Não mate um projeto acadêmico e humanitário, reconhecido e vitorioso, em troca de migalhas frente ao investimento total".

A comunidade em defesa do HU deve se reunir em 10 de dezembro, das 10h às 13h, na Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, Avenida Professor Vicente Peixoto, 50, em frente à Praça Elis Regina.

Rede Brasil Atual